Uma apresentação

Atualmente, não mais são raros os livros sobre jogos eletrônicos que aterrissam nas prateleiras concretas e virtuais. No entanto, pouca é a literatura que apresenta os jogos além dos rigores técnicos de um momento de efusividade tecnológica. Além de característicos símbolos de nossa época, jogos eletrônicos apresentam como fundamento muito mais do que gigabytes de conteúdo processado. Apresentam profundas relações de afeto entre os seus usuários e os sistemas que participam como jogadores. Estão imbuídos com as mesmas características artísticas e intelectuais que um filme ou um romance e capazes de causar a reflexão na mesma medida que um quadro ou uma música.

Adotando essa premissa como uma condição motivadora, decidimos levar os nossos (divertidos e) rotineiros papos de discussão de experiências de jogo um formato mais permanente: um livro.

Sempre que jogamos, uma nova experiência é criada. Uma experiência que começa com base no sistema e toda a estrutura planejada pelos criadores do jogo, mas independentemente do jogo escolhido, se transforma em um fruto particular das características únicas e variadas do jogador. Qualquer jogo pode oferecer fases aos seus jogadores, mas o bom jogo permite que eles descubram e criem mil.

Há mais do que contar além do discurso vigente da criação e do desenvolvimento sob o viés pesadamente computacional. Há sim, toda sorte de emoções e sentimentos que além da comoção, fazem pensar aqueles que se metem na descoberta do significativo dos jogos. Nosso principal objetivo é caracterizar esse documento como um compêndio detalhado de situações que foram vivenciadas e que permitiram aos seus autores, resgatar da experiência, temas e mensagens importantes e inspiradoras. A narrativa que buscamos, imita, portanto, a saga do herói em sua busca de afirmação de valores no aceite de uma busca a qual o irá transformar profundamente.

E como todos sabemos, uma saga apresenta seus atores envolvidos em peripécias que incríveis, nos lançam a reflexão. O herói de mil faces é essa recorrência encontrada nas diversas culturas humanas, diferente mas equivalente, no tempo e no espaço. No livro do célebre mitólogo Joseph Campbell, não há nada de novo sob o sol, somente a releitura de temores e conquistas universais, que uma vez experimentadas pelos ouvintes, os fazem perceber a si e aos outros situados no mítico e no lógico arquetípico. Explorada por diversos autores, nos mais variados suportes, analógicos e digitais, a visão de Campbell da jornada do herói se manifesta sempre que é necessário ensejar o monomito. A manifestação de padrões, portanto, tornam-se evidententes nas diversas narrativas que lidam com vitória sobre adversidades, à partir da evolução espiritual da aquisição de superpoderes obtidos na viagem misteriosa que retornada, fazem resplandecer o protagonista sobre seus iguais.

Eis a nossa meta para o Jogador de Mil Fases: uma jornada pelo mundos dos jogos, guiada por nós, os bardos que aqui se apresentam, mas sob a ótica de diversos outros contadores de histórias. Da mesma forma como estes autores interpretam as suas experiências de maneira absolutamente livre, você, leitor, também está apto a fazê-lo. Encare essa jornada como um convite para que você possa testemunhar outras realidades e incorporá-las na sua próxima experiência e interpretação.

Boa viagem!

Arthur Protasio & Guilherme Xavier,
organizadores dos mil artigos